quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Bar do Neno - Casa Forte - Recife - PE

PRIMEIRO CONTO

Dia desses, noite enluarada de terça-feira, fomos a um desses barezinhos pitorescos que pululam em nossa querida Casa Forte. É o tipo de lugar pacato em que se reúnem morosos casais de meia idade ou colegas de trabalho para um happy hour. Tudo indiscutivelmente regado a chope da mais alta qualidade. E por essas bandas, vos afirmo, não há melhor lugar para a arte de compartilhar um chopinho. Quanta espuma! E tem ainda as comidinhas: frituras, queijinho derretido, alho crocante. Que pecado! Estávamos em uma Sodoma da gula...
Nessa noite, em uma mesa de canto, como de costume ás terças-feiras, um grupo de chorinho suspirava melodias antigas. Podíamos notar que muitos dos clientes ao redor já eram cativos aquele dia da semana, tal a familiaridade com a qual se portavam naquele ambiente lúdico e tão carregado pelos sussurros dos fantasmas de Pixinguinha e Noel Rosa.
Esse, contudo, não parecia ser o caso da família acomodada à mesa a nossa frente. Como chegaram até ali não saberíamos dizer, mesmo porque a princípio eles não nos causaram qualquer comoção. Todavia, depois do segundo chope, aquela família passou a adquirir uma certa cor diante de nossas inquietas retinas. E pouco a pouco, gole a gole, tornavam-se mais interessantes. Tão interessantes que do terceiro chope em diante somente posso dizer que estávamos perdidos: consumidos e apiedados de suas vidas.
Oscar Wilde dizia no século passado que os homens se casam por cansaço, as mulheres por curiosidade e que ambos ficam decepcionados. Nunca tal assertiva nos pareceu tão atual...
Mas não adiantemos em demasia a narrativa. Vamos por partes.
A família era composta por pai, mãe, filho e filha adolescentes, além do irremediável candidato a genro. Mais tarde, relembrando suas tristes figuras, não pude deixar de questionar porque, distraídos, tínhamos levado tanto tempo para percebê-los. De fato, bastava um olhar mais cuidadoso para suas vidas precipitarem-se, trôpegas e ideléveis, sobre nós.
O pai era um tipo adiposo de bochechas fartas e coradas, cabelo e barba grisalhos e olhos apertados. Em princípio, ao contrário dos demais, parecia absorto na mais pura e inocente felicidade desse mundo. Podia-se ver que adorava canções de chorinho e quando tocava alguma mais conhecida suas bochechas ficavam ainda mais vermelhas e seus olhos mais apertados.
Sabe-se lá a quanto tempo planejava ir aquele bar com a família!
Tudo nos pareceu claro de repente. Contar-vos-ei.
Há um mês atrás fora a terrível enchaqueca que acometera sua esposa. Não podia sequer abrir os olhos – pobre mulher! Somente sarou quando durante a novela das oito Reinaldo Gianechini tirou a roupa em determinada cena. Inexplicavelmente, entretanto, a doença voltou ainda mais aterradora no momento em que se recolheu à alcova. Duas semanas depois o empecilho fora avassaladora discussão da filha com o namorado ao telefone. Ninguém esperava que criatura tão frágil pudesse vociferar daquela forma. Seria difícil catalogar os palavrões berrados. A maioria ele sequer conhecia. Infelizmente alguns dias depois tudo se resolvera e o namoro seguia inabalável como uma rocha. Por fim, na semana anterior , justamente na noite de terça-feira, teve a triste surpresa de descobrir na memória do computador, em lugar do projeto em que vinha trabalhando incansavelmente a semanas, mais um desses jogos sanguinários que deleitam os adolescentes perturbados. Após minucioso inquérito o filho foi julgado culpado e passou o fim de semana de castigo.
Diante dessa sinuosa odisséia não se podia recriminar o pobre homem por aquela alegria infantil. Finalmente tinha conseguido reunir a família e somente ele sabia como fora difícil fazê-lo, especialmente no que tange aos filhos, amostragens perfeitas da adolescência: seres esquisitos, catatônicos e ocos, permanentemente alternando entre o alerta laranja e vermelho da insuportabilidade, tal como alterna o perigo de ataques terroristas aos Estados Unidos no governo Bush.
É bem verdade que a filha trouxera de brinde o chatíssimo namorado engomadinho, mas o homem estava decidido a fazer com que nada lhe perturbasse naquela noite. Tentou então docilmente entabular uma conversa qualquer.
Música, cinema, política, a piada do português, tudo em vão. Por mais que se esforçasse o papo parecia não engrenar, salvo pelo persistente genro que se esforçava o mais que podia para impressionar o sogro. Passara a tarde decorando a Barsa, o que ficou claro quando citou a penosa situação do povo do Urzberquistão após o desmembramento da extinta União Soviética. Quanto aos demais, creio que sequer ouviam o que se falava. Suas palavras escapavam docemente como frágeis bolhas de sabão e perdiam-se no ar.
Pouco a pouco, timidamente, a alegria fugia daqueles olhinhos apertados. De súbito, olhando ao redor com mais atenção compreendeu tudo.
A esposa, ao seu lado, muda como uma porta, fazia exatamente o que havia feito nos últimos dezenove anos: nada. Estática como um pau olhava para o infinito. Sabia-se lá se pensava na novela, no supermercado ou nos braços musculosos do porteiro do prédio! O filho, como sempre, acompanhara-os porque estava com fome. Alheio a tudo devorava coxinhas e kibes árabes. A filha, por sua vez, não conseguia disfarçar a irritação. A cada cinco minutos reiterava o pedido para irem embora dali o quanto antes. Como havia notado que a tática não lhe rendia frutos, passou a reclamar de cólicas lancinantes e já arquitetava fingir um desmaio.
O homem então foi tomado pela mais absoluta tristeza. Da família não podia esperar nada. Sobrava-lhe apenas a dignidade. Resignou-se. Olhou o copo de chope com a espuma farta que lhe coroava e murmurou baixinho: “Da próxima vez seremos só nós dois...”

2 comentários:

Unknown disse...

Oi pessoal, muito bom esse primeiro conto. Parabens.

Anônimo disse...

Adorei cada linha!! Estou ansiosa pelos próximos contos!!!